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Castro Verde, uma janela sobre a planície...

As terras de Castro Verde presenteiam ao viajante um olhar esplendoroso pela planície imensa do sul do Alentejo. Um rendilhado de cores preenche o mais pequeno recanto nas paletas de primavera que brindam as gordas pastagens doutros tempos da transumância de gados, ressequidas no verão incendiado dos pastos secos destas terras também de cereal. É aqui o coração do Campo Branco, onde a memória e a tradição oferecem uma especificidade sócio-cultural única, marcada por um diálogo fascinante entre a história e a natureza.

Castro Verde tem o montado como referência paisagística. Mas é na pseudo-estepe destas terras xistosas que se assiste ao desenvolvimento de algumas das mais importantes espécies de avifauna deste sudoeste peninsular. Albergando uma Zona de Protecção Especial, aqui nidificam espécies tão raras como o cortiçol, o sisão, o peneireiro das torres ou a abetarda. Aves que encontram no concelho um dos seus últimos refúgios, num território suavemente marcado por pequenas ribeiras maioritariamente da bacia hidrográfica do Guadiana. Ribeira de Cobres, Maria Delgada, Oeiras, são algumas dessas ténues linhas de água que serpenteiam suaves na larga planura, só rasgada pelos afloramentos rochosos de Aracelis, S. Pedro das Cabeças, Castro Verde. Locais que ao mesmo tempo enformam significados religiosos e que bebem na memória a imponência da sua localização e a simplicidade do construir das gentes da região.

O branco e rendilhado da Capela de Aracelis inspira o sagrado; a capela de S. Pedro das Cabeças, austero e silencioso, evoca a nacionalidade e a conquista de Afonso Henriques aos mouros; a Basílica Real de Castro Verde descreve-nos essa lendária batalha num espantoso painel de azulejos, assumindo-se, ao mesmo tempo, como um dos mais belos edifícios de carácter religioso da região, albergando um extraordinário conjunto de arte sacra, no qual destacamos a Cabeça Relicário de S. Romão ou S. Fabião. 

Mas a história destas terras do Campo Branco carrega um passado milenar que vem desde há mais de cinco mil anos, tendo-nos deixado um legado fascinante e que tem o seu expoente máximo no depósito votivo de lucernas, de Santa Bárbara de Padrões, hoje visitável no Museu da Lucerna, localizado em Castro Verde. Um depósito votivo associado à riqueza mineira do subsolo do concelho que, ainda hoje, se assume duma importância extraordinária na realidade sócio-económica local e regional. Aqui está sedeada uma das maiores minas de extracção de cobre da Europa. Esta espécie de ponte que liga o passado e o presente da região também pode ser apreendido no Núcleo Etnográfico do Monte das Oliveiras. Ou no cantar melodioso dos grupos corais do concelho de Castro Verde. Ou no dedilhado raro da quase extinta viola campaniça. 
A concentração urbana marca a realidade deste concelho, cujas cinco freguesias têm cerca de oito mil habitantes. O crescimento urbanístico tem sido amenizado por uma atitude de construir com qualidade, valorizando-se a malha urbana com expressões modernas de arte pública que complementam o conceito de urbanidade que esta terra respira. Acima de tudo conciliando o tradicional e o moderno. Lado a lado a centenária Feira de Castro (Outubro) ou a Feira do Pau Roxo (Janeiro), com o Festival da Planície Mediterrânica (Setembro); a Feira da Vigília de Santa Bárbara (Agosto) com as danças de raiz europeia do Entrudanças (Março); a Romaria da Senhora de Aracelis (Setembro) e as centenárias festas de S. Miguel (Maio) ou S. Marcos (Abril).
Modernidade e tradição são duas características das terras deste concelho, numa paisagem onde a mão do homem tem sido fundamental para manter vivas tradições tão importantes como a da gastronomia ligada ao borrego e ao porco, a do fabrico do pão alvo e saboroso, ou a da doçaria, representada nas queijadas ou nos bolos de gila. 

Castro Verde é esta terra de vagares, de gestos puros e olhares imensos. No meio da planura alentejana, com a simplicidade de quem oferece a mesa e cultiva a amizade.    
Paulo Nascimento
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